A terapia hormonal é, provavelmente, o assunto que mais gera dúvida entre mulheres na perimenopausa e na menopausa. Parte disso vem de informações desatualizadas que circulam há mais de vinte anos; parte vem da falta de um lugar onde tudo esteja explicado com clareza, do começo ao fim.

Este guia reúne, em um só lugar, o que você precisa saber antes de conversar com sua médica sobre reposição hormonal: quando considerar, quais são os tipos e vias, o que os exames mostram, quais riscos são reais, quanto tempo dura o tratamento e o que fazer quando a terapia hormonal não é uma opção.

Nada aqui substitui uma consulta — o objetivo é que você chegue nela com informação de qualidade e boas perguntas.

1. O que é terapia hormonal, afinal?

Terapia hormonal da menopausa (THM) é a reposição dos hormônios que os ovários deixam de produzir em quantidade suficiente — principalmente o estrogênio e, quando o útero está presente, a progesterona (ou progestagênio) para proteger o endométrio.

Não se trata de "rejuvenescer" nem de manter níveis hormonais de uma mulher de 30 anos. O objetivo é usar a menor dose eficaz para aliviar sintomas que impactam a vida e, em situações específicas, prevenir consequências de longo prazo — como a perda óssea acelerada.

Os termos "reposição hormonal", "TRH" e "THM" costumam ser usados como sinônimos. A nomenclatura atual mais aceita é terapia hormonal da menopausa.

2. Quando considerar começar?

O gatilho para considerar a terapia hormonal não é a idade nem um exame isolado — é o impacto dos sintomas na sua vida, somado ao seu perfil de risco.

Situações em que vale conversar com uma médica sobre THM:

  • Ondas de calor e sudorese noturna moderadas a intensas, que atrapalham o sono ou a rotina.
  • Ressecamento vaginal, dor nas relações ou infecções urinárias de repetição (síndrome geniturinária da menopausa).
  • Insônia, irritabilidade, ansiedade ou névoa mental que começaram junto com as mudanças do ciclo.
  • Menopausa precoce (antes dos 45 anos), insuficiência ovariana prematura (antes dos 40) ou menopausa cirúrgica.
  • Risco elevado de osteoporose ou perda de massa óssea já documentada.

Existe também o conceito de janela de oportunidade: iniciar a terapia hormonal antes dos 60 anos ou dentro dos 10 primeiros anos após a menopausa está associado a um perfil de risco-benefício mais favorável, inclusive do ponto de vista cardiovascular. Começar muito tempo depois não é impossível, mas muda a conversa.

3. Tipos de hormônio: o que é o quê

Estrogênio: é o hormônio responsável pelo alívio dos sintomas vasomotores, do ressecamento vaginal e pela proteção óssea. O mais usado hoje é o 17-beta-estradiol, bioidêntico ao produzido pelo ovário.

Progesterona ou progestagênio: necessário para quem tem útero, porque protege o endométrio do estímulo contínuo do estrogênio. A progesterona micronizada é a opção com perfil metabólico e mamário mais favorável na maior parte dos casos.

Testosterona: pode ser considerada em situações específicas, sobretudo quando há queixa persistente de desejo sexual hipoativo já com estrogênio otimizado.

Sobre "hormônios bioidênticos": o termo é usado de duas formas diferentes. Estradiol e progesterona micronizada de farmácia industrial são bioidênticos e regulados pela Anvisa. Já as fórmulas manipuladas sob medida, incluindo implantes ("chips") com doses supra fisiológicas, não têm padronização nem evidência de segurança equivalente — e não são recomendadas pelas principais sociedades médicas.

4. Vias de administração: por que isso importa tanto

A via de administração muda o perfil de risco do tratamento — talvez seja o detalhe mais subestimado por quem lê sobre o assunto na internet.

  • Transdérmica (gel ou adesivo): o estradiol entra direto na circulação, sem passar primeiro pelo fígado. Não aumenta de forma relevante o risco de trombose e é a via preferida para mulheres com sobrepeso, hipertensão, enxaqueca ou outros fatores de risco.
  • Oral (comprimido): prática e eficaz, mas passa pelo metabolismo hepático, o que eleva discretamente o risco de tromboembolismo. Continua sendo uma boa opção para mulheres de baixo risco.
  • Vaginal (creme, óvulo ou anel): tratamento local para ressecamento, dor nas relações e sintomas urinários. A absorção sistêmica é mínima, o que a torna segura mesmo para muitas mulheres que não podem fazer terapia sistêmica.
  • Implantes e injetáveis de longa duração: não permitem ajuste fino nem suspensão rápida da dose. Não são a primeira escolha na prática baseada em evidências.

5. Quais exames são necessários antes de começar

O diagnóstico de menopausa é clínico — não depende de dosagem hormonal na maioria das mulheres acima dos 45 anos. Os exames servem para avaliar segurança e traçar a linha de base, não para "provar" que você precisa de hormônio.

Em geral, a avaliação inclui:

  • Anamnese detalhada e histórico familiar (câncer de mama, trombose, doença cardiovascular precoce).
  • Pressão arterial, peso, circunferência abdominal.
  • Perfil lipídico, glicemia e/ou hemoglobina glicada, função hepática, TSH.
  • Mamografia dentro do prazo e exame ginecológico atualizado.
  • Ultrassonografia transvaginal quando há sangramento anormal ou indicação clínica.
  • Densitometria óssea conforme idade e fatores de risco.
  • FSH e estradiol apenas em casos selecionados — principalmente suspeita de menopausa precoce ou uso de contraceptivo que mascara o ciclo.

6. Benefícios que a ciência sustenta

Sintomas vasomotores: a THM é o tratamento mais eficaz disponível para ondas de calor e sudorese noturna, com redução da frequência e da intensidade em poucas semanas.

Saúde óssea: previne a perda óssea acelerada da pós-menopausa e reduz o risco de fraturas — benefício especialmente relevante em menopausa precoce.

Saúde geniturinária: o estrogênio local resolve ressecamento, dor nas relações e boa parte das infecções urinárias de repetição dessa fase.

Sono, humor e cognição: muitas mulheres relatam melhora expressiva, em boa parte pela quebra do ciclo de despertares noturnos causados pelos fogachos.

Cardiovascular: iniciada dentro da janela de oportunidade, a evidência aponta para um efeito neutro a favorável. Ainda assim, a THM não é prescrita com o objetivo isolado de prevenir doença cardiovascular.

7. Riscos reais, em contexto

O estudo WHI, publicado em 2002, gerou uma onda de medo que ainda hoje afasta mulheres do tratamento. Análises posteriores mostraram que a população estudada era mais velha (média de 63 anos), usava hormônios e vias diferentes dos preferidos hoje, e que os resultados não podem ser transportados diretamente para uma mulher de 50 anos iniciando estradiol transdérmico.

Câncer de mama: o pequeno aumento de risco está associado sobretudo ao uso prolongado de terapia combinada com progestagênios sintéticos. Em números absolutos, o acréscimo é da ordem de menos de 1 caso adicional por 1.000 mulheres por ano de uso — comparável ao risco atribuído ao consumo regular de álcool ou ao sedentarismo. Estrogênio isolado (em mulheres sem útero) não mostra esse aumento.

Trombose e AVC: risco discretamente maior com a via oral; com a via transdérmica, o risco é próximo ao de quem não usa.

Sangramentos e sensibilidade mamária: efeitos comuns nos primeiros meses, geralmente ajustáveis com mudança de dose ou de esquema.

É igualmente importante lembrar que não tratar também tem custo: sono ruim crônico, perda óssea, sofrimento psíquico e piora da qualidade de vida não são desfechos neutros.

8. Quem não deve fazer terapia hormonal

Contraindicações absolutas: câncer de mama atual ou prévio, câncer endometrial hormônio-dependente, tromboembolismo venoso ativo ou recente, doença hepática grave, sangramento uterino não investigado e infarto ou AVC recentes.

Contraindicações relativas — que exigem avaliação individual: hipertensão não controlada, enxaqueca com aura, trombofilias conhecidas, lúpus com anticorpo antifosfolípide e algumas dislipidemias graves.

Mesmo nesses casos, o estrogênio vaginal em dose baixa pode ser possível para sintomas locais — sempre com avaliação individualizada.

9. Por quanto tempo se usa?

Não existe prazo fixo nem obrigação de suspender aos 5 anos, como se dizia no passado. A decisão é revisada periodicamente, considerando sintomas, idade, riscos acumulados e preferência da paciente.

Em menopausa precoce e insuficiência ovariana prematura, a recomendação é manter a terapia pelo menos até a idade média da menopausa natural — em torno dos 51 anos —, porque nesse cenário a reposição repõe o que o corpo deveria estar produzindo.

Quando se decide parar, a retirada gradual costuma reduzir o retorno abrupto dos sintomas.

10. Como é o acompanhamento

Depois de iniciar, o esperado é uma reavaliação em 4 a 12 semanas para ajustar dose e checar tolerância, e depois consultas pelo menos anuais, com exames de rastreio em dia.

Alívio parcial dos sintomas quase sempre significa que a dose ou a via precisam de ajuste — não que "a terapia hormonal não funcionou para você".

11. E quando a terapia hormonal não é opção?

Há alternativas com evidência para sintomas vasomotores, como alguns antidepressivos em doses específicas, gabapentina, oxibutinina e, mais recentemente, os antagonistas de receptor de neuroquinina. Para o ressecamento vaginal, hidratantes vaginais, lubrificantes e laser são possibilidades.

Além disso, treino de força, sono regular, consumo adequado de proteína, redução de álcool e manejo do estresse têm efeito consistente sobre sintomas, composição corporal e saúde óssea — com ou sem hormônio.

12. Perguntas que valem levar para a consulta

  • Considerando o meu histórico, qual é o meu perfil de risco para terapia hormonal?
  • Qual via faz mais sentido para o meu caso e por quê?
  • Quais exames preciso atualizar antes de começar?
  • Quanto tempo até eu sentir diferença e o que é esperado nas primeiras semanas?
  • Quais sinais devem me fazer entrar em contato antes da próxima consulta?
  • Se eu decidir não usar hormônio, quais são as minhas alternativas?

Em resumo

A terapia hormonal não é obrigatória nem proibida: é uma decisão clínica individual, tomada com informação boa e acompanhamento adequado. Para a mulher certa, no momento certo, na via certa, ela é uma das intervenções que mais mudam a qualidade de vida nessa fase.

Se você está na perimenopausa ou na menopausa e quer entender o que se aplica ao seu caso, uma consulta completa é o caminho para transformar essa informação em um plano concreto.